O PEREGRINO DE BUNYAN E O PEREGRINO DA AMÉRICA

 

Rodney José Paolillo

Faculdade de Educação de Assis - IEDA

 

 

Alegoria é um modo de expressão literária e artística que, através de um conjunto de imagens, mostra uma realidade com significado simbólico. Ou seja, a alegoria tem dois planos: o da representação figurada, literal e visível, e o da significação encoberta. Os elementos  da representação figurada correspondem aos da realidade ocultada, e a correspondência entre os dois planos se dá pelo princípio da analogia.

 

 O período áureo do emprego da alegoria se deu do século XIII ao XVIII, o que não implica na ausência de manifestações significativas do gênero em períodos anteriores e posteriores. No século XVI, vê-se o triunfo da alegoria no teatro, em representações do vício e da virtude, como no Auto da Alma (1518), de Gil Vicente, nas Morality Plays inglesas e nas Moralités francesas. O século XVII conhece a obra de John Bunyan, The Pilgrim’s Progress, obra totalmente alegórica, publicada em 1678, com fundamentos do puritanismo inglês, contrário ao anglicanismo, religião oficial da Grã-Bretanha. O século XVIII vê a decadência do estilo alegórico, principalmente em sua segunda metade. Nos anos vinte, encontramos, conforme diz Antonio Candido[1] a publicação da sátira Gulliver Travels (1725), de Jonathan Swift, e o Compêndio Narrativo do Peregrino da América (1728), de Nuno Marques Pereira, apenas o primeiro volume, em que apresenta uma narrativa apologética dos dez mandamentos.

 

Objetiva-se com este trabalho, comparar as obras de Bunyan e Nuno Marques Pereira, obras alegóricas cristãs. Segundo João Adolfo Hansen, é possível vislumbrar, pelo menos dois tipos de alegorias: a dos poetas, voltada para o procedimento construtivo de ornamentação dos discursos, sendo assim uma alegoria retórica, e a alegoria dos teólogos, que adapta os princípios da retórica antiga para a interpretação da Bíblia, fazendo com que o conteúdo tenha primazia sobre a forma. Observa-se que as obras em análise comparativa enquadram-se no segundo modelo de Hansen, sendo declaradamente voltadas para a transmissão da fé cristã, como se vê no longo poema que introduz a obra de Bunyan: Este livro de ti fará verdadeiro viajante./ E se por ele te deixares guiar adiante, até a Terra Santa te levará[2]. É interessante ressaltar que o autor se vale do mesmo poema para defender o utilização da alegoria como forma de transmissão de sua mensagem.

 Pereira inicia sua obra também defendendo a intenção espiritual e a forma alegórica de expressá-la, observa-se o primeiro item no seguinte trecho: Demais que o fundamento e a substância da vida Christã é o cumprimento da Lei de Deus, e observância de seus Mandamentos, por serem pedras fundamentaes destes nossos espirituais edificios...por cuja razão fundo esta Obra nestes tão sólidos fundamentos.[3] Observa-se que o procedimento de ambos os autores é semelhante, defendendo suas obras, a forma de apresentá-las e o conteúdo, em primeiro lugar, com a diferença que Bunyan utilizou a poesia, gênero considerado elevado e Pereira empregou a prosa apologética, apelando para o latim, citações bíblicas e rebuscando a linguagem com o emprego de inúmeros adjetivos e inversões sintáticas, bem ao modo do barroco católico ibérico, diferente do barroco protestante anglo-saxão, empregado por Bunyan, que é mais direto, não apelando para construções tão rebarbativas.

 

Nota-se que a construção dos textos segue a tendência doutrinária da facção religiosa em que os autores se inserem. Bunyan segue, nitidamente, a tradição protestante puritana, muito mais radical que a anglicana, baseando-se nos preceitos calvinistas que pregavam um estilo de vida sóbrio, voltado para o trabalho e para a devoção, valorizando muito a vida após a morte, como sendo o ideal de todo cristão. Tal pensamento baseia-se nas idéias de Santo Agostinho, que por sua vez, releu, de forma alegórica, o pensamento platônico, que transmite a noção de dois mundos, o das sombras, que é o habitado pelos seres humanos em estado de ignorância e o ideal, de onde provém toda a inspiração e onde se encontram os conceitos perfeitos, que só serão alcançados pelos habitantes do mundo das sombras pelo exercício da razão, que é o caminho do bem. Agostinho e Calvino, posteriormente, tomaram o pensamento platônico e interpretaram o mundo das sombras como sendo a vida terrestre e o mundo ideal como sendo a vida celeste, sendo o caminho para a passagem do primeiro para o segundo a fé, manifestada pelas ações que a demonstram, sendo esta solidificada pelo vencer das muitas provações e tentações. Tal base doutrinária é empregada por Bunyan, que faz com que Cristão, o protagonista de sua obra, passe por diversas situações de provação no caminho da caverna em que se encontrava no início do texto, até a cidade celestial, que é seu objetivo. A citação da caverna é uma clara alusão ao Mito da Caverna, de Platão, símbolo da ignorância do homem longe da luz da razão; é também uma metáfora para a prisão em que se encontrava o autor, local em que escreveu o livro. Bunyan foi preso por discordar das doutrinas da Igreja Anglicana e sua obra é uma clara afirmação do pensamento puritano. Trata-se, portanto, de uma apologia de sua doutrina, contra a doutrina estatal, sendo, assim, um livro de resistência e de afirmação do pensamento calvinista solidificado no governo de Oliver Cromwell e depois hostilizado com a volta da dinastia Stuart ao trono inglês.

 

No Peregrino da América, Pereira apresenta o ideário da doutrina católica pós-Concílio de Trento, influenciado pelo pensamento jesuítico, voltado para um aspecto mais prático da vida, baseado em Aristóteles, que foi retomado no período da escolástica medieval por São Tomás de Aquino, buscando explicações racionais para a existência de Deus e afirmando que as obras são geradoras da fé, devendo o cristão alicerçar-se na prática da caridade, para assim garantir a vida após a morte, o que faz com que a existência terrena seja extremamente valorizada, pois esta dita a condição da vida futura. Dessa forma, em seu texto, Pereira salienta a importância do Decálogo para que se alcance a excelência da vida cristã. Os exemplos que apresenta são todos extraídos do cotidiano do Brasil colonial, o que faz com que a  leitura e aplicação dos preceitos apresentados pelo autor se prendam ao momento histórico e local de sua produção, sendo de difícil compreensão para leitores de outras nacionalidades, ignorantes das realidades da vida colonial brasileira.

 

Dessa forma, constata-se que a obra de Bunyan tem um caráter universal, por empregar figuras atemporais, antropomorfizando virtudes e vícios apresentados pelos seres humanos, em qualquer lugar em que o Cristianismo for professado. Já o texto de Pereira, é particularizante quando se vale de figuras do cotidiano colonial, em situações peculiares de sua época, tornando a leitura menos acessível a outro público que não o brasileiro. Talvez por esta causa, a alegoria de Bunyan seja considerada de melhor qualidade que a de Pereira, por apelar mais para a subjetividade, aproximando-se assim da alegoria clássica, enquanto que a de Pereira é mais objetiva e circunstancial, afastando-se da forma clássica.

 

A configuração dos textos apresentam significativas diferenças. Bunyan emprega a narrativa entremeada por textos dramáticos. Muitas vezes, a narrativa parece ao leitor uma marcação de cena, mostrando a movimentação e atitudes das personagens, como se vê no trecho: “Auxílio estendeu-lhe a mão e puxou Cristão, colocando-o em solo firme e ordenando-lhe que seguisse o seu caminho...Então aproximou-se daquele que o tirou do pântano e disse: (...)[4] Os diálogos são a forma de expressão mais importante, fazendo com que o leitor se identifique com as personagens e facilitando a exposição do texto para grupos maiores, provavelmente em escolas e igrejas. É interessante salientar que os protestantes contam, desde o final do século XVI, com um número menor de analfabetos que os católicos, principalmente pela valorização da livre interpretação da Bíblia pelos fiéis, o que exige a capacidade de leitura da mesma. A tradição teatral inglesa precede Bunyan, que aproveitou a forma para melhor divulgar sua obra. Depois da Bíblia, O Peregrino é o livro cristão mais vendido do mundo, ainda nos dias de hoje, possuindo adaptações para crianças, volumes ilustrados, seriado televisivo, filme cinematográfico e recentemente foi lançada a versão para vídeo-game, em que o jogador deve auxiliar Cristão a chegar à Cidade Celestial. Tal popularidade mostra que a forma comunicativa escolhida pelo autor alcançou seu objetivo, divulgando a doutrina calvinista até hoje.

 

O Peregrino da América é escrito inteiramente em prosa narrativa, contando com parágrafos longos, demorando-se em explicações minuciosas de todos os acontecimentos vividos e conselhos dados pelo protagonista, recorrendo a inúmeros textos bíblicos e citações em latim que dificultam a fluência da leitura. Não se encontram diálogos diretos, os interlocutores apenas dão o tema que será apresentado pelo peregrino, que faz imensos discursos moralizantes, defendendo cada um dos mandamentos. Tal procedimento faz com que a leitura seja lenta e difícil para o neófito e pessoas de pouca instrução, pois, apesar de reconhecerem as situações apresentadas, provavelmente terão dificuldades para entender o discurso que as desembaraçam, devido ao rebuscamento lingüístico e extensão dos parágrafos. Observa-se que o Brasil colonial ainda não tinha uma tradição na prosa, sendo a poesia o gênero mais difundido e de mais fácil memorização.

 

Os textos apresentam semelhança no que concerne à divisão em capítulos, o que mostra o caráter didático de ambos. A divisão de Bunyan, facilita a montagem do texto na forma dramatizada, sendo cada capítulo um ato, ou mesmo para uma leitura escolar, em que se lê um capítulo por aula, facilitando a ministração, já que cada capítulo traz à luz uma situação que servirá como tema para análise, podendo-se citar: a dificuldade, a fidelidade, a humilhação, a morte, a vaidade, a esperança, o desespero, etc.

 

O texto de Pereira também conta com uma divisão que facilita a análise em sala de aula, pois apresenta os capítulos estruturados a fim de seguir a seqüência do Decálogo, podendo cada um ser lido separadamente, pois contam com introdução, desenvolvimento e conclusão independentes, sendo unidos apenas pela presença do narrador protagonista, que, ao final, amarra todos os conteúdos abordados em breves considerações e convite para a leitura do segundo volume, que não foi editado enquanto o autor vivia.

 

Conclui-se que as diferenças entre O Peregrino, de Bunyan, e o Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, são maiores que as semelhanças; todavia, estas se dão nos pontos mais importantes, segundo a concepção ideológica dos autores. Ambos empregam o discurso alegórico, defendem suas convicções religiosas e têm como objetivo a doutrinação dos leitores. A pergunta que se faz é: teria Nuno Marques se inspirado em Bunyan para escrever sua obra? O texto inglês precede o luso-brasileiro em cinqüenta anos e foi difundido na Europa e América, pois os colonos norte-americanos tinham acesso à obra. Sabe-se da influência histórica que a Inglaterra teve sobre Portugal, o que facilitaria o acesso da literatura inglesa a portugueses e brasileiros, não sendo impossível que Nuno Marques, um dia, tenha lido a obra do inglês. Sabe-se também da rivalidade ideológica entre os cristãos protestantes e os católicos na Europa, rivalidade que, posteriormente, se estendeu para a América, todavia com menos ardor. Pelo Concílio de Trento, os católicos deveriam salientar tudo aquilo que os protestantes não considerassem importante, já que estes últimos possuem ritos mais simples, templos sem ornamentos ostensivos, Bíblia na língua pátria de onde é lida, a valorização do trabalho árduo como enobrecedor do homem e uma literatura mais direta, limpa de adornos desnecessários, com uma piedade subjetiva, apelando para a consciência do leitor. Os primeiros possuem rituais elaborados, cheios de símbolos, templos imensos e ricamente adornados, mantém a leitura bíblica em língua latina, vêem o trabalho como um castigo e uma vergonha para o homem e desenvolvem uma literatura carregada de floreios lingüísticos, mas com conteúdo objetivo, visando nortear as atitudes práticas do leitor.

 

Se Nuno Marques inspirou-se em Bunyan foi para mostrar a forma católica de se fazer alegoria, segundo a orientação jesuítica, pois as figuras apresentadas são completamente diferentes, assim como a configuração do texto. Todavia, O Peregrino inglês continua sua trajetória, sendo constantemente reeditado e servindo como fonte de edificação religiosa para protestantes de todo o mundo, enquanto o  luso-brasileiro parece ter diminuído o ritmo de sua marcha, não contando com muitas edições recentes e sendo conhecido por um círculo reduzido, composto por historiadores, críticos e pesquisadores de literatura

 

 

 

 

Bibliografia Consultada

 

BUNYAN, John. O Peregrino. Trad. Eduardo Pereira e Ferreira. São Paulo: Mundo Cristão,1999.

CANDIDO, Antonio. Timidez do Romance. In: A Educação pela Noite e outros Ensaios. 2.ed. São

      Paulo: Ática, 1989.

HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Atual, 1986.

PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. 6.ed. Rio de Janeiro:

     Publicações da Academia Brasileira, 1939.

 

 

 

 



[1] CANDIDO, Antonio. Timidez do romance. In: A educação pela noite e outros ensaios. 2.ed. São Paulo: Ática, 1989, p.86.

[2] BUNYAN, John. O Peregrino. Trad. Eduardo Pereira e Ferreira. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p.xvi.

[3] PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. 6.ed. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1939, p.7.

[4] BUNYAN, John. Op. Cit., p.12-13.